Representação gráfica de trecho da 5ª sinfonia de Beethoven (Kandinsky)
À Música
Música: respiração das estátuas. Talvez, silêncio das imagens. Palavras ainda, quando as palavras cessam. Tempo tu, perpendicular, na direção de corações naufragados.
Sentimentos para quem? Sentimentos transformados em quê? Em paisagem audível. Música: estranha és! Espaço de coração que ficou grande demais para nós. Intimidade que nos supera ao forçar sua saída, sagrada despedida: pois o íntimo nos rodeia como uma distância muito ensaiada, como outra vertente do ar: puro, enorme, não mais habitável.
"Não podemos, de forma alguma, esperar duplicar a natureza – conseqüentemente, é melhor expressar os próprios sentimentos. Como poderia alguém pintar uma angústia real – lágrimas que brotam das profundezas da alma de uma pessoa, como aquelas da mulher que vi chorando no hospital por uma doença venérea, seus braços uma criança frágil, vulnerável, limitada. Ela tinha acabado de descobrir que sua criança recém-nascida estava condenada à morte. Sua face contorcida, seus lábios inchados, seu queixo inchado enrubescido. Seus olhos eram simples fendas das quais estreitos rios de lágrimas estavam descendo – e o seu nariz vermelho-púrpura.
Aquele rosto angustiado tinha que ser pintado da forma como eu o vi, contra as paredes verdes do hospital, e os olhos carentes de resposta e sofridos da criança, tinha que pintar exatamente como vi, olhando fixamente o corpo amarelo-pálido, minúsculo – tão branco quanto o lençol sobre o qual ela estava. Portanto, tive que ignorar uma série de outras coisas, tais como os efeitos da verdade sobre a luz, que é relativo. Largas áreas da pintura estavam como em um pôster – amplas superfícies de nada. Mas esperei fazer as melhores partes, as que pretendiam transportar a verdadeira mensagem da pintura da dor, algo ainda mais sublime.
E, então, o público inteiro riu da pintura, dizendo que ela era exageradamente imoral e eu estava, mais uma vez, destinado a ser desprezado e martirizado. Sabia que a acusação de imoralidade me causaria dor, embora tenha intencionado que este fosse um trabalho da mais alta moral. Sabia que seria rotulado como um criminoso comum."
I went to the Garden of Love, And saw what I never had seen; A Chapel was built in the midst, Where I used to play on the green.
And the gates of this Chapel were shut, And 'Thou shalt not' writ over the door; So I turned to the Garden of Love That so many sweet flowers bore.
And I saw it was filled with graves, And tombstones where flowers should be; And priests in black gowns were walking their rounds, And binding with briars my joys and desires.
Tradução de Paulo Vizioli:
O Jardim do Amor
Tendo ingressado no Jardim do Amor, Deparei-me com algo inusitado: Haviam construído uma Capela No meio, onde eu brincava no gramado.
E ela estava fechada; “Tu não podes” Era a legenda sobre a porta escrita. Voltei-me então para o Jardim do Amor, Onde crescia tanta flor bonita,
E recoberto o vi de sepulturas E lousas sepulcrais, em vez de flores; E em vestes negras e hediondas os padres faziam rondas, E atavam com nó espinhoso meus desejos e meu gozo.
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Buscando pela pintura no Google, percebi um link para um vídeo no youtube e decidi averiguar. Em meio à muitas declamações, achei duas obras musicais baseadas no poema. A primeira de um obscuro compositor chamado Jens Klimek, do qual, infelizmente, não consegui obter maiores informações, pois as poucas referências que encontrei estavam todas em alemão. Uma música bastante moderna que me lembrou algumas obras vocais de compositores como Stockhausen e Xenakis. Como estes sons sempre me agradam, resolvi postar.
A segunda obra está mais para New Age, com "an expressive Celtic-flavored melody", é enfadonhamente bonita. Tende a agradar apreciadores de incensos indianos e "Senhor dos Anéis" (eu gosto também).
A sudden blow: the great wings beating still Above the staggering girl, her thighs caressed By his dark webs, her nape caught in his bill, He holds her helpless breast upon his breast.
How can those terrified vague fingers push The feathered glory from her loosening thighs? How can anybody, laid in that white rush, But feel the strange heart beating where it lies?
A shudder in the loins, engenders there The broken wall, the burning roof and tower And Agamemnon dead.
Being so caught up, So mastered by the brute blood of the air, Did she put on his knowledge with his power Before the indifferent beak could let her drop?
Leda e o Cisne (tradução de Augusto de Campos)
Um baque súbito. A asa enorme ainda se abate Sobre a moça que treme. Em suas coxas o peso Da palma escura acariciante. O bico preso à nuca, contra o peito o peito se debate.
Como podem os pobres dedos sem vigor Negar à glória e à pluma as coxas que se vão Abrindo e como, entregue a tão branco furor, Não sentir o pulsar do estranho coração?
Um frêmito nos rins haverá de engendrar Os muros em ruína, a torre, o teto a arder E Agameênnon, morrendo. Ela, tão sem defesa,
Brutalizada pelo abrupto sangue do ar, Se impregnaria de tal força e tal saber Antes que o bico inerte abandonasse a presa?
LEDA E O CISNE
Súbito golpe: as grandes asas a bater Sobre a virgem que oscila, a coxa acariciada Por negros pés, a nuca, um bico a vem reter; O peito inane sobre o peito, ei-la apresada.
Dedos incertos de terror, como empurrar Das coxas bambas o emplumado resplendor? Pode o corpo, sob esse impulso de brancor, O coração estranho não sentir pulsar?
Um tremor nos quadris engendra incontinenti A muralha destruída, o teto, a torre a arder E Agamêmnon, o morto.
Capturada assim, E pelo bruto sangue do ar sujeita, enfim Ela assumiu-lhe a ciência junto com o poder, Antes que a abandonasse o bico indiferente?
(tradução: Péricles Eugênio da Silva Ramos)
domingo, 2 de novembro de 2008
(imagem: Caspar David Friedrich, Monge no mar, 1809, óleo sobre tela, 110x172 cm)
"Quem for capaz de respirar na atmosfera das minhas obras sabe que se trata de um ar de altitude, de um ar forte. Há que ser feito para ele, de outro modo não será pequeno o perigo de resfriamento.
O gelo circunda-o; grande é a solidão- mas como repousam tranqüilas as coisas em meio da luz! Vede como o peito respira amplamente e como são insignificantes todas as criações humanas que sentimos debaixo de nós.
A filosofia, tal como eu, até hoje, a entendi e a vivi, consiste em viver voluntariamente no gelo e na alta montanha, em procurar tudo o que é estranho e problemático na existência, tudo aquilo que, até ao presente, foi anatematizado pela moral. Devido a uma longa experiência, que me foi dada por essa peregrinação através do interdito, aprendi a encarar os motivos pelos quais, até agora, se moralizou e se idealizou, de maneira muito diferente do que pode ser para desejar: a história oculta dos filósofos, a psicologia dos grandes nomes da filosofia apareceram-me à luz do dia. Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais essa se tornou para mim a autêntica escala de aferição. O erro (a crença no ideal) não é cegueira, o erro é cobardia... Cada avanço, cada passo em frente no conhecimento resulta da coragem, da dureza contra si próprio, da limpeza ante si próprio... Eu não refuto os ideais, calço simplesmente luvas perante eles... Nitimur in vetiturn*: sob este signo triunfará um dia a minha filosofia, pois em princípio sempre se proibiu, até hoje, apenas a verdade."