E se eu disser que te amo - assim, de cara,
sem mais delonga ou tímidos rodeios,
sem nem saber se a confissão te enfara
ou te apraz o emprego de tais meios?
E se eu disser que sonho com teus seios,
teu ventre, tuas coxas, tua clara
maneira de sorrir, os lábios cheios
da luz que escorre de uma estrela rara?
E se eu disser que à noite não consigo
sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo?
Pois eis que o digo, amor. E logo esbarro
em tua ausência - essa lâmina exata
que me penetra e fere e sangra e mata.
(Ivan Junqueira)
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sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Quando solene e agudo
Quando solene e agudo eu te penetro,
mais agudo que o gume de uma adaga,
e à tua ilharga, que de suor se alaga,
me enlaço como quem abraça um cetro,
e lambo a tua espádua que naufraga
sob o sêmen fugaz com que perpetro
em ti que não falo ou mal soletro
tal o peso do pasmo que me esmaga,
sou como um rei na cripta de uma vaga
cuja espuma engalana cada imagem
ou palavra que ruge na voragem
das páginas sagradas desta saga.
Quando me afundo em ti, útero adentro,
como Deus, numa esfera, estou no centro.
(Ivan Junqueira)
mais agudo que o gume de uma adaga,
e à tua ilharga, que de suor se alaga,
me enlaço como quem abraça um cetro,
e lambo a tua espádua que naufraga
sob o sêmen fugaz com que perpetro
em ti que não falo ou mal soletro
tal o peso do pasmo que me esmaga,
sou como um rei na cripta de uma vaga
cuja espuma engalana cada imagem
ou palavra que ruge na voragem
das páginas sagradas desta saga.
Quando me afundo em ti, útero adentro,
como Deus, numa esfera, estou no centro.
(Ivan Junqueira)
Esse punhado de ossos- Ivan Junqueira
Esse punhado de ossos
Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro e de mais fino.
Foram damas tais ossos, foram reis,
e príncipes e bispos e donzelas,
mas de todos a morte apenas fez
a tábua rasa do asco e das mazelas.
E ali, na areia anônima, eles moram.
Ninguém os escuta. Os ossos não choram.
Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro e de mais fino.
Foram damas tais ossos, foram reis,
e príncipes e bispos e donzelas,
mas de todos a morte apenas fez
a tábua rasa do asco e das mazelas.
E ali, na areia anônima, eles moram.
Ninguém os escuta. Os ossos não choram.
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