"Sim, eram inspiradoras horas, dias, semanas. A dose de oxigênio que propiciava a vida ao ar livre, bem como as sensações paisagísticas e históricas fascinavam os jovens e lhes elevavam o espírito à altura de pensamentos que tinham aquele caráter despreocupado, experiencial, inerente à vida de estudantes, embora não tivessem serventia alguma para suas prosaicas carreiras posteriores, quando
eles levassem vidas de filisteus, apesar de seu nível intelectual.
Frequentemente observei esses moços no decorrer de seus debates teológicos-filosóficos, ponderando que vários dentre eles um dia considerariam os tempos passados na "Winfried" o capítulo mais importante de sua vida. Observei-os e observei a Adrian, com o pressentimento por demais nítido de que ele não pensaria da mesma forma. Avistei, não sem alguma angústia, um abismo fatal entre essa
juventude cheia de altas aspirações e a existência dele, a diferença entre as curvas do porvir de pessoas de uma boa e até excelente média, cujo destino seria abandonarem em breve o dispersivo e tateante estado de estudante, para se encaminharem à rotina burguesa, e, do outro lado, um homem estigmatizado de um
signo invisível, fadado a jamais afastar-se da senda do espírito e da problematicidade, que prosseguiria trilhando, não se sabia até onde, e cujo olhar, cujo comportamento nunca abrandado por atitudes fraternais, cujas inibições em face do uso dos tratamentos de "tu" ou "vocês" ou "nós" faziam com que eu e provavelmente também os outros percebêssemos que também ele se dava conta de tal dissimilitude"
Mostrando postagens com marcador Thomas Mann. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Thomas Mann. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 3 de junho de 2015
terça-feira, 2 de junho de 2015
Thomas Mann - Doutor Fausto
"E prosseguiu, expondo que a Música achava sua realização sensual mais poderosa no gênero instrumental da orquestra, onde, através dos ouvidos, parecia excitar todos os sentidos, fundindo, à maneira de um opiato, o gozo dos sons com o das cores e dos perfumes. Nesse caso, mais do que em qualquer outro, convertia-se na penitente fantasiada de feiticeira. Existe, no entenanto - afirmou o gato -, um instrumento, isto é, um recurso de realização musical, mediante o qual a música fica audível, mas de um modo meio assensual, quase abstrato e por isso peculiarmente adequado à sua índole espiritual: é o piano, instrumento que não é tal na acepção dos outros, já que lhe falta qualquer caráter específico."
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Thomas Mann- A Montanha Mágica
Com respeito à natureza do tédio encontram-se frequentemente conceitos erróneos. Crê-se em geral que a novidade e o carácter interessante do seu conteúdo "fazem passar" o tempo, quer dizer, abreviam-no, ao passo que a monotonia e o vazio estorvam e retardam o seu curso. Mas não é absolutamente verdade. O vazio e a monotonia alargam por vezes o instante ou a hora e tornam-nos "aborrecidos"; porém, as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada. Um conteúdo rico e interessante é, pelo contrário, capaz de abreviar uma hora ou até mesmo o dia, mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tempo, de tal maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que são varridos pelo vento e voam. Portanto, o que se chama de tédio é, na realidade, antes uma simulação mórbida da brevidade do tempo, provocada pela monotonia: grandes lapsos de tempo quando o seu curso é de uma ininterrupta monotonia chegam a reduzir-se a tal ponto, que assustam mortalmente o coração; quando um dia é como todos, todos são como um só; e numa uniformidade perfeita, a mais longa vida seria sentida como brevíssima e decorreria num abrir e fechar de olhos. O hábito é uma sonolência, ou, pelo menos, um enfraquecimento do senso do tempo, e o facto dos anos de infância serem vividos vagarosamente, ao passo que a vida posterior se desenrola e foge cada vez mais depressa, esse facto também se baseia no hábito. Sabemos perfeitamente que a intercalação de mudanças de hábitos, ou de hábitos novos, constitui o único meio de manter a nossa vida, de refrescar a nossa sensação de tempo, de obter um rejuvenescimento, um reforço, um atraso da nossa experiência do tempo, e com isso, a revolução da nossa sensação da vida em geral. Tal é a finalidade da mudança de lugar e de clima, da viagem de recreio: nisso reside o que há de salutar na variação e no episódio. Os primeiros dias num ambiente novo têm um curso juvenil, quer dizer, vigoroso e amplo - seis ou oito dias. Depois, na medida em que a pessoa se "aclimata", começa a senti-los abreviarem-se: quem se apega à vida, ou melhor, quem gostaria de apegar-se à vida nota, com horror, como os dias começam a tornar-se leves e furtivos; e a última semana - de quatro, por exemplo - é de uma rapidez e fugacidade inquietante. Verdade é que a vitalização do nosso senso de tempo faz-se sentir para além do interlúdio, e desempenha o seu papel ainda quando a pessoa já voltou à rotina; os primeiros dias que passamos em casa, depois desta variação, afiguram-se-nos também novos, amplos e juvenis, mas sómente uns poucos: porque a gente acostuma-se mais rápidamente à rotina do que à sua suspensão, e quando o nosso senso do tempo está fatigado pela idade, ou nunca o possuímos desenvolvido em alto grau - o que é sinal de pouca força vital - volta a adormecer muito depressa, e ao cabo de vinte e quatro horas já é como se a pessoa jamais tivesse partido e a viagem não passasse de um sonho de uma noite.
Thomas Mann- Tônio Kroeger
Sim, era preciso ser tolo para poder andar como ele; e então se era amado, porque se era amável. Compreendia tão bem que Inge, a loura e doce Inge, olhava para o Senhor Knaak como o fazia. Mas será que nunca uma moça olharia assim para ele mesmo?
Oh? Sim, isto acontecia. Havia Madalena Vermehren, a filha do advogado Vermehren, com a boca suave e grandes olhos escuros, serenos e sonhadores. Caía muitas vezes durante a dança, mas procurava-o quando era "escolha de damas"; sabia que ele fazia versos, pedira por duas vezes que lhos mostrasse, e muitas vezes olhava-o de longe com a cabeça inclinada. Mas de que lhe servia isso? Ele, ele amava Inge Holm, a loura e alegre Inge, que por certo o despreza por escrever coisas poéticas...Olhava para ela, via-se seus olhos azuis e oblíquos cheios de felicidade e ironia, e uma saudade invejosa, uma dor acre, oprimente, sabendo-se excluído e eternamente estranho a ela, se aninhava no seu peito e ardia...
(...)
Seus olhos, oblíquos e azuis, loura Inge! Ser tão bonita como você é só possível quando não se lê Imemensee e nunca se tenta fazer uma obra igual; isto é o trágico!...
Oh? Sim, isto acontecia. Havia Madalena Vermehren, a filha do advogado Vermehren, com a boca suave e grandes olhos escuros, serenos e sonhadores. Caía muitas vezes durante a dança, mas procurava-o quando era "escolha de damas"; sabia que ele fazia versos, pedira por duas vezes que lhos mostrasse, e muitas vezes olhava-o de longe com a cabeça inclinada. Mas de que lhe servia isso? Ele, ele amava Inge Holm, a loura e alegre Inge, que por certo o despreza por escrever coisas poéticas...Olhava para ela, via-se seus olhos azuis e oblíquos cheios de felicidade e ironia, e uma saudade invejosa, uma dor acre, oprimente, sabendo-se excluído e eternamente estranho a ela, se aninhava no seu peito e ardia...
(...)
Seus olhos, oblíquos e azuis, loura Inge! Ser tão bonita como você é só possível quando não se lê Imemensee e nunca se tenta fazer uma obra igual; isto é o trágico!...
Thomas Mann- A Montanha Mágica
"Ela riu, com o cigarro na boca, a ponto de se contraírem os olhos tártaros. Reclinou-se ao forro de madeira apoiando as mãos no banquinho, com as pernas cruzadas, balouçava o pé calçado com um sapato preto de verniz.
- Quelle générosité! Oh là, là, vraiment, meu pobre pequeno, é exatamente assim que eu sempre imaginei un homme de génie!
- Deixa disso, Clawdia. Claro que por natureza não sou nenhum homme de génie, como não sou tampouco um homem de grande envergadura. Não, meu Deus! Mas o acaso- dize que foi o acaso- levou-me muito alto, até essas regiões geniais...
Numa palavra, talvez não saiba que existe uma coisa que se chama pedagogia alquimístico-hermética, a transubstanciação, rumo ao mais sublime, e por conseguinte uma ascensão, se bem me compreendes.
Mas é óbvio que a matéria suscetível de ser impelida e empurrada, por influências exteriores, em direção a uma esfera mais elevada, necessita para isso ter certas qualidades próprias.
E quanto às qualidades que eu possuía, sei muito bem que eram as seguintes:
desde muito cedo tempo estava familiarizado com a doença e com a morte, e já nos meus tempos de menino cometi o disparate de te pedir emprestado um lápis, tal como se deu naquela noite de Carnaval!
Mas o amor disparatado é genial, pois a morte - sabes?- é o princípio genial, a res bina, o lapis philosophorum, e é também o princípio pedagógico, uma vez que o amor a ela conduz ao amor à vida e ao homem. É realmente assim; descobri-o
no meu compartimento de sacada, e me sinto feliz de ter uma ocasião de te dizer isso. Há dois caminhos que conduzem à vida: um é o caminho ordinário, direto e honrado; o outro é mau, passa pela morte, e este é o caminho genial.
-És um filósofo abtruso- disse ela- Não pretendo compreender todos esses teus pensamentos confusos e alemães, mas eles soam humanos, e certamente és um bom rapaz."
- Quelle générosité! Oh là, là, vraiment, meu pobre pequeno, é exatamente assim que eu sempre imaginei un homme de génie!
- Deixa disso, Clawdia. Claro que por natureza não sou nenhum homme de génie, como não sou tampouco um homem de grande envergadura. Não, meu Deus! Mas o acaso- dize que foi o acaso- levou-me muito alto, até essas regiões geniais...
Numa palavra, talvez não saiba que existe uma coisa que se chama pedagogia alquimístico-hermética, a transubstanciação, rumo ao mais sublime, e por conseguinte uma ascensão, se bem me compreendes.
Mas é óbvio que a matéria suscetível de ser impelida e empurrada, por influências exteriores, em direção a uma esfera mais elevada, necessita para isso ter certas qualidades próprias.
E quanto às qualidades que eu possuía, sei muito bem que eram as seguintes:
desde muito cedo tempo estava familiarizado com a doença e com a morte, e já nos meus tempos de menino cometi o disparate de te pedir emprestado um lápis, tal como se deu naquela noite de Carnaval!
Mas o amor disparatado é genial, pois a morte - sabes?- é o princípio genial, a res bina, o lapis philosophorum, e é também o princípio pedagógico, uma vez que o amor a ela conduz ao amor à vida e ao homem. É realmente assim; descobri-o
no meu compartimento de sacada, e me sinto feliz de ter uma ocasião de te dizer isso. Há dois caminhos que conduzem à vida: um é o caminho ordinário, direto e honrado; o outro é mau, passa pela morte, e este é o caminho genial.
-És um filósofo abtruso- disse ela- Não pretendo compreender todos esses teus pensamentos confusos e alemães, mas eles soam humanos, e certamente és um bom rapaz."
Thomas Mann- Tônio Kroeger
"Então veio a solidão, com o tormento e o orgulho da cognição, porque não se sentia bem no círculo dos inocentes com a alma alegre e obscura e estes, por sua vez, sentiam-se pertubados pelo sinal na sua testa. Mas a alegria na palavras nas formas se tornou cada vez mais doce para ele, pois costumava dizer (e já tomara nota disto) que o conhecimento da alma somente nos faria infalivelmente tristonhos, se o contentamento da expressão não nos conservasse acordados e alegres...
(...)
Trabalhava silenciosamente, recolhido, invisível e cheio de desprezo pelos pequenos, para os quais o trabalho era um enfeite sociável, os quais, fossem pobres ou ricos, se exibiam selvagens e rotos ou luxavam com gravatas pessoais, que em primeira linha intencionavam ser felizes, gentis e levar uma vida artística, desconhecendo que as boas obras só se formam sob a pressão de uma vida dura; que aquele que vive não trabalha e que é preciso ter morrido para ser um completo criador."
(...)
Trabalhava silenciosamente, recolhido, invisível e cheio de desprezo pelos pequenos, para os quais o trabalho era um enfeite sociável, os quais, fossem pobres ou ricos, se exibiam selvagens e rotos ou luxavam com gravatas pessoais, que em primeira linha intencionavam ser felizes, gentis e levar uma vida artística, desconhecendo que as boas obras só se formam sob a pressão de uma vida dura; que aquele que vive não trabalha e que é preciso ter morrido para ser um completo criador."
Assinar:
Postagens (Atom)
