Mostrando postagens com marcador Jacobsen. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jacobsen. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 16 de junho de 2009

Jacobsen - Niels Lyhne

"Diga o que disser, porém, fica descontente consigo mesmo e sente que não correspondeu às exigências do seu próprio ser, de nada lhe adiantam as especulações e as dúvidas sobre os fundamentos dessas exigências. Enfrenta uma opção, e deve enfrentar; pois a vida é assim: passada a primeira mocidade, cedo ou tarde, conforme a natureza de cada um, cedo ou tarde amanhece o dia em que a resignação vem a nós a dizer adeus ao impossível e darmo-nos por satisfeitos. E a resignação tem doces e judiciosas palavras...Quantas vezes não foram derrotadas as aspirações ideais da juventude, quantas vezes seu entusiasmo não foi espezinhado e a sua esperança, aniquilada!

Os ideais, os claros e luminosos ideais ainda não perderam nada do seu brilho, mas não percorrem mais a terra ao nosso lado, como nos primeiros dias da nossa juventude; pisaram os largos degraus da experiência e subiram de novo ao céu de onde tinham sido retirados pela nossa fé ingênua, e lá se encontram, cintilantes mas distantes, sorridentes mas fatigados, numa ociosidade divina, enquanto o incenso de uma inerte adoração vai se enrolando até o seu trono em solenes espirais."

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Jacobsen- Niels Lyhne

"Não eram só os jovens que pregavam o novo Evangelho que mandava demolir para aperfeiçoar. Havia também homens maduros, cujo nome gozava de consideração, e que acolhiam as idéias novas com expressões aliás mais abrangentes que as dos moços; sabiam adornar melhor as suas concepções, invocavam nomes dos séculos passados, nunca lhes faltava o auxílio da história, a história do mundo, a história do espírito humano, a odisséia das idéias. Eram homens que em sua juventude tinham sido e tinham dado testemunho do mesmo espírito que agora possuía esses mais novos; é verdade que, depois de chegarem à conclusão de que falavam no deserto, isto é, de que estavam sós, tinham emudecido; porém os moços só se lembravam do que estes homens tinham dito, não se lembravam do tempo em que tinham silenciado, e estavam prontos a homenageá-los com coroas de louros e palmas de martírio, felizes por poder admirá-los. Aqueles que eram alvo dessa admiração não recusavam esse tardio reconhecimento do seus méritos, aceitavam de boa fé as coroas, consideravam-se já engrandecidos aos olhos da História, retocavam poeticamente o que havia de menos heróico em seu passado e, quanto às suas antigas convicções, que o desfavor dos tempos arrefecera, declamavam-nas de novo, calorosamente."

Jacobsen- Niels Lyhne

"Nunca esperaria isso de mim?...Eu mesma tinha ridicularizado tantas vezes a sociedade e suas tolices convencionais, sua moral padronizada, seu termômetro da virtude
(...)
é verdade que nós mulheres podemos nos libertar por algum tempo, quando alguma coisa aconteceu em nossa vida que nos abriu os olhos para o impulso de liberdade que apesar de tudo possuímos; mas não o suportamos. Trazemos no sangue uma paixão pelas coisas corretas, corretíssimas...Até mesmo pelo que haja de mais exagerado em matéria de puritanismo. Não suportamos viver em conflito com aquilo que é aceito pelo comum dos mortais. No íntimo achamos que eles têm razão, porque são eles os que julgam, e inclinamo-nos dentro de nossos corações diante das suas sentenças e sofremos, por mais que afetemos um ar de bravata. Não nos importa, a nós, mulheres, sermos exceções, não fazemos caso disso, Niels; seríamos tão estranhas, seríamos interessantes talvez, porém...Pode compreendê-lo? Acha que isso é lamentável? No entanto, devia compreender que me fizesse uma estranha impressão o fato de voltar ao meu ambiente de outrora. Surgiam tantas lembranças - sobretudo a de minha mãe, de suas idéias; tinha a sensação de que voltara ao porto; tudo tão pacífico e certo...Bastava que eu me prendesse a isso tudo, e seria perfeitamente feliz o resto de minha vida. E eu me deixei prender, Niels."