"Mephistopheles:
-Devo trazer-te, antes de tudo,
A roda alegre e livre como esta;
Da vida fácil, faze aqui o estudo;
P'ra este povinho, todo dia é festa.
A graça é pouca, mas havendo quem a applauda,
Cada um revolve alegre em sua estreita roda,
Como gato, a brincar com a cauda.
Emquanto uma enxaqueca não os incommoda
E lhes dá crédito o patrão,
Ledos e sem cuidado estão. "
(Goethe, descrevendo nosso dia-a-dia)
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quinta-feira, 18 de março de 2010
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Fausto
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"Margarida:
[i] - À confissão, à missa, não te vejo.
Não crês então? [/i]
Fausto:
[i]-Comprehende bem, meu doce coração!
Quem o pode nomear?
Quem professar:
Eu creio nelle?
Quem conceber
E ousar dizer:
Não creio nelle?
Elle, do todo abrangedor,
O universal sustentador,
Não abrange e não sustem elle
A ti, a mim, como a si proprio?
Lá no alto não se arqueia o céo?
Não jaz a terra aqui embaixo, firme?
E em brilho suave não se elevam
Perennes astros para o alto?
Não fita o meu olhar o teu,
E não penetra tudo
Ao coração e ao juizo teu,
E obra invisivel, em mysterio eterno,
Visivelmente ao lado teu?
Disso enche o coração, até o extremo.
E quando transbordar de um extase supremo,
Então nomeia-o como queiras,
Ventura! amor! coração! Deus!
Não tenho nome para tal!
O sentimento é tudo;
Nome é vapor e som,
Nublando ardor celeste."[/i]
"Margarida:
[i] - À confissão, à missa, não te vejo.
Não crês então? [/i]
Fausto:
[i]-Comprehende bem, meu doce coração!
Quem o pode nomear?
Quem professar:
Eu creio nelle?
Quem conceber
E ousar dizer:
Não creio nelle?
Elle, do todo abrangedor,
O universal sustentador,
Não abrange e não sustem elle
A ti, a mim, como a si proprio?
Lá no alto não se arqueia o céo?
Não jaz a terra aqui embaixo, firme?
E em brilho suave não se elevam
Perennes astros para o alto?
Não fita o meu olhar o teu,
E não penetra tudo
Ao coração e ao juizo teu,
E obra invisivel, em mysterio eterno,
Visivelmente ao lado teu?
Disso enche o coração, até o extremo.
E quando transbordar de um extase supremo,
Então nomeia-o como queiras,
Ventura! amor! coração! Deus!
Não tenho nome para tal!
O sentimento é tudo;
Nome é vapor e som,
Nublando ardor celeste."[/i]
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Goethe-Schubert- Der Erlkönig
Estive a ouvir a ópera Orfeu e Eurídice do Gluck, e fechando os olhos sentia como se os próprios deuses cantassem, era como se os cantos de Orfeu continuassem ressoando pelo o espaço, eternamente. E comecei a refletir sobre a possibilidade de a música nos propiciar encontros místicos e intensos com uma mitologia já morta e esquecida, de reanimar e trazer à vida velhos deuses.
Tudo isto não tem muito a ver com este tópico, mas me encanta a união da música com as letras, com a poesia. Pretendo publicar uma série de lieders do Schubert, e quem sabe de outros compositores, sobre poemas do Goethe, com suas respectivas traduções.
Começarei com Der Erlkönig, com a interpretação de Fischer-Dieskau, e também uma gravação muito expressiva visualmente de Jessye Norman.
Tenho em mãos um livro com diversas traduções de poemas do Goethe, organizado por Samuel Pfromm Netto, de onde tirei a tradução deste, bem como o pequeno trecho a seguir:
"As origens da balada são uma poesia traduzida por Herder do dinamarquês e o relato feio a Goethe do desespero de um pai na tentativa de salvar seu filho único: em busca de socorro médico, cavalgou até a cidade de Iena com o filho nos braços. Era, no entanto, impossível salvar a criança e o pai voltou para casa com o filho moribundo, descendo, em meio do caminho, a uma hospedaria, a 'Estalagem do Pinheiro'. Antes mesmo de atingir a hospedaria, a criança morreu. Essa narrativa emocionou profundamente o poeta, que se hospedou na estalagem e na solidão e no silêncio desta escreveu "O Rei dos Elfos". P.A Moura esclarece que elfos era a designação de "seres etéreos", povoadores, portanto, dos ares, entidades intermediárias entre a divindade e as criaturas. Essas sílfides formavam duas categorias, os elfos brancos ou da luz e os elfos negros. Os primeiros (Lichtelfen) assemelhavam-se aos seres humanos, mas tinham pequena estatura e eram belos, graciosos, leves e ágeis. Como não tinham alma, esperavam adquiri-la no convívio com os seres humanos e procuravam atrair criaturas formosas para transformá-las em elfos. Quem não caía vencido sob o seu encanto, era por eles amaldiçoado, tocado ou bafejado pelo seu hálito, adoecendo ou morrendo subitamente. O rei dos elfos aparecia sempre com uma coroa e uma capa branca que, de passagem, deixava uma longa e brilhante esteira de luz dentro da noite,"
Interpretação de Fischer-Dieskau.
Interpretação de Jessye Norman.
Rei dos Elfos
Em meio das trevas, do vento ao açoite?
É um pai que o filhinho conduz em seus braços;
Resguarda-o do frio, do afeto nos laços.
Meu pobre filhinho, por que tal pavor?
E tapas os olhos, por que meu amor?
Não vêdes, meu pai, dos Elfos o rei?
É êle, e não me enganei.
É sim, bem lhe vejo eu o manto e a coroa...
Meu filho, é uma nuvem, talvez a garoa...
Mas diz-lhe uma voz em timbre de amigo:
Vem, caro menino, vem cá, vem comigo,
E juntos faremos mui lindos brinquedos
Risonhos e lêdos.
Nas ribas eu tenho milhares de flôres,
De tôdas as côres,
Iguais às dos prados.
Possui minha mãe mil vestidos dourados...
Meu pai, meu paizinho, que vozes são estas?
Ouvis as promessas
Que o rei dos Elfos faz baixinho em segrêdo?...
Oh, fica tranqüilo, não tenhas tu mêdo;
É o vento, que sopra em meio à folhagem...
Oh, linda criança, serei o teu pájem
Queres vir comigo? Pois vem. Minhas filhas
Aflitas te esperam, verás maravilhas!
E tôdas em ronda, ao luar dançarão,
E te hão de embalar e te adormecerão.
Cantando... dançando...
Meu pai, que! não vêdes, embaixo na sombra,
Do rei que me chama as filhas na alfombra?...
Meu filho, não penses em reis feiticeiros:
As sombras que vês, são os velhos salgueiros...
Eu te amo, e a tua beleza me encanta;
Se aos rogos não cedes, a fôrça suplanta,
Fazer-te ceder, isto a mim não me custa...
Meu pai, ó meu pai, ei-lo já que me assusta
O rei feiticeiro me faz tanto mal!...
O pai estremece e ao filho, a afagá-lo
Os flancos aperta, nervoso, ao cavalo
E vai, entre os braços, levando a criança
Que geme. Depressa a herdade êle alcança
E inquieto sem fôrças, enfim bate à porta,
Estava a criança, em seus braços - já morta.
Tudo isto não tem muito a ver com este tópico, mas me encanta a união da música com as letras, com a poesia. Pretendo publicar uma série de lieders do Schubert, e quem sabe de outros compositores, sobre poemas do Goethe, com suas respectivas traduções.
Começarei com Der Erlkönig, com a interpretação de Fischer-Dieskau, e também uma gravação muito expressiva visualmente de Jessye Norman.
Tenho em mãos um livro com diversas traduções de poemas do Goethe, organizado por Samuel Pfromm Netto, de onde tirei a tradução deste, bem como o pequeno trecho a seguir:
"As origens da balada são uma poesia traduzida por Herder do dinamarquês e o relato feio a Goethe do desespero de um pai na tentativa de salvar seu filho único: em busca de socorro médico, cavalgou até a cidade de Iena com o filho nos braços. Era, no entanto, impossível salvar a criança e o pai voltou para casa com o filho moribundo, descendo, em meio do caminho, a uma hospedaria, a 'Estalagem do Pinheiro'. Antes mesmo de atingir a hospedaria, a criança morreu. Essa narrativa emocionou profundamente o poeta, que se hospedou na estalagem e na solidão e no silêncio desta escreveu "O Rei dos Elfos". P.A Moura esclarece que elfos era a designação de "seres etéreos", povoadores, portanto, dos ares, entidades intermediárias entre a divindade e as criaturas. Essas sílfides formavam duas categorias, os elfos brancos ou da luz e os elfos negros. Os primeiros (Lichtelfen) assemelhavam-se aos seres humanos, mas tinham pequena estatura e eram belos, graciosos, leves e ágeis. Como não tinham alma, esperavam adquiri-la no convívio com os seres humanos e procuravam atrair criaturas formosas para transformá-las em elfos. Quem não caía vencido sob o seu encanto, era por eles amaldiçoado, tocado ou bafejado pelo seu hálito, adoecendo ou morrendo subitamente. O rei dos elfos aparecia sempre com uma coroa e uma capa branca que, de passagem, deixava uma longa e brilhante esteira de luz dentro da noite,"
Interpretação de Fischer-Dieskau.
Interpretação de Jessye Norman.
Rei dos Elfos
Tradução de Lindolfo Gomes.
Quem corre a cavalo, tão tarde da noite,Em meio das trevas, do vento ao açoite?
É um pai que o filhinho conduz em seus braços;
Resguarda-o do frio, do afeto nos laços.
Meu pobre filhinho, por que tal pavor?
E tapas os olhos, por que meu amor?
Não vêdes, meu pai, dos Elfos o rei?
É êle, e não me enganei.
É sim, bem lhe vejo eu o manto e a coroa...
Meu filho, é uma nuvem, talvez a garoa...
Mas diz-lhe uma voz em timbre de amigo:
Vem, caro menino, vem cá, vem comigo,
E juntos faremos mui lindos brinquedos
Risonhos e lêdos.
Nas ribas eu tenho milhares de flôres,
De tôdas as côres,
Iguais às dos prados.
Possui minha mãe mil vestidos dourados...
Meu pai, meu paizinho, que vozes são estas?
Ouvis as promessas
Que o rei dos Elfos faz baixinho em segrêdo?...
Oh, fica tranqüilo, não tenhas tu mêdo;
É o vento, que sopra em meio à folhagem...
Oh, linda criança, serei o teu pájem
Queres vir comigo? Pois vem. Minhas filhas
Aflitas te esperam, verás maravilhas!
E tôdas em ronda, ao luar dançarão,
E te hão de embalar e te adormecerão.
Cantando... dançando...
Meu pai, que! não vêdes, embaixo na sombra,
Do rei que me chama as filhas na alfombra?...
Meu filho, não penses em reis feiticeiros:
As sombras que vês, são os velhos salgueiros...
Eu te amo, e a tua beleza me encanta;
Se aos rogos não cedes, a fôrça suplanta,
Fazer-te ceder, isto a mim não me custa...
Meu pai, ó meu pai, ei-lo já que me assusta
O rei feiticeiro me faz tanto mal!...
O pai estremece e ao filho, a afagá-lo
Os flancos aperta, nervoso, ao cavalo
E vai, entre os braços, levando a criança
Que geme. Depressa a herdade êle alcança
E inquieto sem fôrças, enfim bate à porta,
Estava a criança, em seus braços - já morta.
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