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segunda-feira, 29 de abril de 2013

Primeira Elegia


Quem se eu gritasse, entre as legiões de Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo
senão o grau do Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo anjo é terrível.
E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? Nem anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina, que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgastar-nos a face — a quem se furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que amam?
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos — talvez os pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.
Sim, as primaveras precisam de ti.
Muitas estrelas queriam ser percebidas.
Do passado profundo afluía uma vaga, ou
quando passavas sob uma janela aberta,
uma viola d'amore se abandonava. Tudo isso era missão.
Acaso a cumpriste? Não estavas sempre
distraído, à espera, como se tudo
anunciasse a amada? (Onde queres abrigá-la,
se grandes e estranhos pensamentos vão e vêm
dentro de ti e, muitas vezes, se demoram nas noites?)
Se a nostalgia vier, porém, canta as amantes;
ainda não é bastante imoral sua celebrada ternura.
Tu quase as invejas — estas abandonadas
que te parecem tão mais ardentes que as
apaziguadas. Retoma infinitamente o inesgotável
louvor. Lembra-te: o herói permanece, sua queda
mesma foi um pretexto para ser — nascimento supremo.
Mas às amantes, retoma-as a natureza no seio
esgotado, como se as forças lhe faltassem
para realizar duas vezes a mesma obra.
Com que fervor lembraste Gaspara Stampa,
cujo exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem
qualquer, abandonada pelo amante: por que não sou
como ela? Frutificarão afinal esses longínquos
sofrimentos? Não é tempo daqueles que amam libertar-se
do objeto amado e superá-lo, frementes?
Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo
mais do que ela mesma. Pois em parte alguma se detém.

Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como outrora apenas
os santos ouviam, quando o imenso chamado
os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados,
os prodigiosos, e nada percebiam,
Tão absortos ouviam. Não que possas suportar
a voz de Deus, longe disso. Mas ouve essa aragem,
a incessante mensagem que gera o silêncio.
Ergue-se agora, para que ouças, o rumor
dos jovens mortos. Onde quer que fosses,
nas igrejas de Roma e Nápoles, não ouvias a voz
de seu destino tranquilo? Ou inscrições não se ofereciam,
sublimes? A estela funerária em Santa Maria Formosa...
O que pede essa voz? a ansiada libertação
da aparência de injustiça que as vezes perturba
a agilidade pura de suas almas.

É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,
abandonar os hábitos apenas aprendidos,
às rosas e a outras coisas o sentido do vir-a-ser humano;
o que se era, entre mãos trêmulas, medrosas,
não mais ser; abandonar até mesmo o próprio nome
como se abandona um brinquedo partido.
Estranho, não desejar mais nossos desejos. Estranho,
ver no espaço tudo o quanto se encandeava, esvoaçar,
desligado. E o estar-morto é penoso
E quantas tentativas até encontrar em seu seio
um vestígio de eternidade. — Os vivos cometem
o grande erro de distinguir demasiado
bem. Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem
se caminham entre vivos ou mortos.
Através das duas esferas, todas as idades a corrente
eterna arrasta. E a ambas domina com seu rumor.

Os mortos precoces não precisam de nós, eles
que se desabituam do terrestre, docemente,
como de suave seio maternal. Mas nós,
ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes
só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles
poderíamos ser? Inutilmente foi que outrora, a primeira
música para lamentas Linos, violentou a rigidez da
matéria inerte? No espaço que abandonava, jovem,
quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu
em vibrações — que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.

terça-feira, 13 de março de 2012

"Não é somente a inércia culpada pela repetição dos relacionamentos humanos, caso a caso, indescritivelmente, de forma monótona e sem renovação. É a timidez diante de novas e imprevisíveis experiências para as quais acreditamos não estar preparados. Mas somente alguém que está preparado para TUDO, que não exclui NADA, nem o mais enigmático, vivenciará a relação com o outro como algo vivo."

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Música


Representação gráfica de trecho da 5ª sinfonia de Beethoven (Kandinsky)


À Música

Música: respiração das estátuas. Talvez,
silêncio das imagens. Palavras ainda, quando as palavras
cessam. Tempo tu,
perpendicular, na direção de corações naufragados.

Sentimentos para quem? Sentimentos transformados
em quê? Em paisagem audível.
Música: estranha és! Espaço de coração
que ficou grande demais para nós. Intimidade
que nos supera ao forçar sua saída,
sagrada despedida:
pois o íntimo nos rodeia
como uma distância muito
ensaiada, como outra
vertente do ar:
puro,
enorme,
não mais habitável.

Rainer Maria Rilke

(trad. Karlos Rischbieter)

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Pietà


(Pietà, de Bellini)

Pietà


Minha miséria agora é completa. Algo sem nome
apoderou-se do meu ser. Imóvel,
como se fora pedra,
o cerne também de pedra.
Apenas uma coisa eu sei:
Cresceste-
......cresceste muito
até alcançar a grande dor
que meu coração não pode compreender.
Jazes, deitado obliquamente no meu colo
e então, então é impossível de novo
te gerar.

Rainer Maria Rilke
(trad: Dora. F. da Silva).



Este é um dos 13 poemas do livro "A vida de Maria", publicado pouco antes de iniciar sua primeira Elegia de Duíno, em um momento de crise criativa. São poemas pouco conhecidos, e não muito valorizados pelo próprio Rilke. Mas me agradam e a meu ver possuem trechos bastante rilkeanos, como este "cresceste...cresceste muito até alcançar a grande dor que meu coração não pode compreender." que me lembrou um trecho da quarta carta à Kappus: "Evite dar alimento ao drama sempre pendente entre pais e filhos, o qual gasta muita força destes e consome o amor daqueles; amor que, embora incompreensivo, age e aquece. Não lhes peça conselho e não conte com sua compreensão, mas acredite num amor que lhe é conservado como uma herança e fique certo de que há nesse amor uma força e uma bênção a que não se arrancará mesmo se for para muito longe."




ps. Essa tela é a primeira Pietà de Bellini. Há uma outra que prefiro, onde o Cristo se encontra em pé, é mais dramática. Mas tão dramática que roubaria a atenção do poema. :)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Rilke










O Solitário

Não: uma torre se erguerá do fundo
do coração e eu estarei à borda:
onde não há mais nada, ainda acorda
o indizível, a dor, de novo o mundo.

Ainda uma coisa, só, no imenso mar
das coisas, e uma luz depois do escuro,
um rosto extremo do desejo obscuro
exilado em um nunca-apaziguar,

ainda um rosto de pedra, que só sente
a gravidade interna, de tão denso:
as distâncias que o extinguem lentamente
tornam seu júbilo ainda mais intenso.

(Tradução: Augusto de Campos)

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Rilke


O Torso Arcaico de Apolo

(trad. Manuel Bandeira)


Não sabemos como era a cabeça, que falta,
de pupilas amadurecidas. Porém
o torso arde ainda como um candelabro e tem,
só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

e brilha. Se não fosse assim, a curva rara
do peito não deslumbraria, nem achar
caminho poderia um sorriso e baixar
da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
pedra, um desfigurado mármore, e nem já
resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
como uma estrela; pois ali ponto não há
que não te mire. Força é mudares de vida.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Rilke- Os Cadernos de Malte Laurids Brigge

É ridículo. Estou aqui sentado no meu pequeno quarto, eu, Brigge, que tenho vinte e oito anos e de que ninguém sabe. Estou aqui sentado e não sou nada. E no entanto este nada começa a pensar e, num quinto andar, por uma tarde pardacenta de Paris, pensa este pensamento:

É possível, pensa esse nada, que se não tenha ainda visto, reconhecido e dito nada de real e importante? É possível que se tenha tido milênio para observar, refletir e anotar e que se tenha deixado passar os milênios como um recreio da escola em que se come o pão com manteiga e uma maçã?
Sim, é possível.
É possível que, a despeito de invenções e progressos, a despeito da cultura, da religião e da filosofia, se tenha ficado à superfície da vida? É possível que se tenha recoberto mesmo esta superfície- que no fim e ao cabo seria ainda alguma coisa- com uma substância incrivelmente enfadonha, que a torna parecida com móveis de salão durante férias de Verão?
Sim, é possível.
(...)
É possível que todos estes homens conheçam com toda a exatidão um passado que nunca existiu? É possível que todas as realidades nada sejam para eles; que a sua vida decorra sem estar ligada a nada, como um relógio num quarto vazio?
Sim, é possível.
(...)
É possível que haja pessoas que digam "Deus" e suponham que isso é algo de comum? - E vê estes dois meninos de escola: um compra um canivete, e o seu vizinho compra outro igualzinho no mesmo dia. E mostram um ao outro os canivetes passada uma semana, e vê-se então que eles só muito de longe se parecem,- tão diferentemente eles se desenvolveram em mãos diferentes. (Ora, diz a mãe de um deles: se vós pondes logo tudo a servir e tudo gastais...-) Ah, é verdade: É possível acreditar que se possa ter um Deus sem o usar?
Sim, é possível.

Mas se tudo isto é possível, se tem mesmo só uma ligeira aparência de possibilidade,- então, por quem sois!, é preciso fazer qualquer coisa! O primeiro que teve esse pensamento inquietante, tem de começar a fazer qualquer coisa do que se descuidou; mesmo que seja um qualquer, sem ser o mais apropriado: pois se não há outro...
Este jovem, este estrangeiro sem importância, este Brigge, terá de se sentar no seu quinto andar e escrever, dia e noite: sim, terá de escrever, e isso será o fim.

Rilke - Cartas à um Jovem Poeta

"Estar sozinho como se estava quando criança, enquanto os adultos iam e vinham, ligados a coisas que pareciam importantes e grandes, porque esses adultos tinham um ar tão ocupado e porque nada se entendia de suas ações.

Se depois um dia a gente descobre que suas profissões são petrificadas, sem ligação alguma com a vida, por que não voltar a olhá-los outra vez como uma criança olha para uma coisa estranha, do âmago de seu próprio mundo, dos longes de sua própria solidão que é, por si só, trabalho, dignidade e profissão? Por que querer trocar a sábia não-compreensão de uma criança pela defensiva e pelo desprezo - uma vez que a não-compreensão significa solidão, ao passo que defensiva e desprezo equivalem à participação nas próprias coisas cujo afastamento se deseja?"

domingo, 2 de novembro de 2008

A Pantera- Rilke



A PANTERA
Rainer Maria Rilke
(Trad. Augusto de Campos)


De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.