(...) E à noite não jantavam no hotel, onde os focos elétricos, jorrando
luz no grande refeitório, transformavam-no em um imenso e maravilhoso
aquário, diante de cuja parede de vidro a população operária de Balbec,
os pescadores e também as famílias de pequeno-burgueses, invisíveis na
sombra, se comprimiam contra o vidro para olhar, lentamente embalada em
remoinhos de outro, a vida luxuosa daquela gente, tão extraordinária
para os pobres como a de peixes e moluscos estranhos (uma grande questão
social, saber se a parede de vidro protegerá sempre o festim dos
animais maravilhosos e se a gente obscura que olha avidamente de dentro
da noite não virá colhê-los em seu aquário e devorá-los). No entanto, em
meio àquela multidão suspensa e atônita no negror da noite, talvez
houvesse algum escritor ou estudioso ictiologia humana, que ao ver como
se fechavam as mandíbulas dos velhos monstros femininos para engolir
algum pedaço de alimento, talvez se entretivesse em classificar tais
monstros pelas suas raças, pelos caracteres inatos e também por esses
caracteres adquiridos, graças aos quais uma velha dama sérvia, cujo
apêndice bucal é o de um grande peixe marinho, come salada como uma La
Rochefoucauld, porque desde a infância vive na água doce do Faubourg
Saint-Germain.(...)
(À sombra das raparigas em flor)
quinta-feira, 25 de abril de 2013
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...
quinta-feira, 12 de julho de 2012
“‘A alegria’, diz Nietzsche, ‘quer eternidade, quer profunda eternidade’. Não é nem nunca foi assim: a alegria não quer nada, e é por isso que é alegria. A dor, essa, é o contrário da alegria, como a concebia Nietzsche: quer acabar, quer não ser. O prazer, porém, quando o concebemos fora da relação essencial com a alegria ou com a dor, como o concebe o autor deste livro, esse, sim, quer eternidade; porém quer a eternidade num só momento”
terça-feira, 13 de março de 2012
"Não é somente a inércia culpada pela repetição dos relacionamentos humanos, caso a caso, indescritivelmente, de forma monótona e sem renovação. É a timidez diante de novas e imprevisíveis experiências para as quais acreditamos não estar preparados. Mas somente alguém que está preparado para TUDO, que não exclui NADA, nem o mais enigmático, vivenciará a relação com o outro como algo vivo."
Fala
Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.
Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.
Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade.)
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.
Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.
Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade.)
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
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